Cantor global que vive a castidade concede entrevista a Cecilia

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1 – Primeiramente, conte-nos um pouco de sua trajetória musical. Como surgiu a ideia de criar uma banda “em família”?

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A música entrou na minha vida desde muito cedo, na verdade trago no DNA o amor pelo som. Meu avô era maestro e passou para os filhos um pouco do conhecimento de música, meu pai apesar de ter a advocacia como profissão, todos os fins de semana tinha o hábito de se juntar com amigos e familiares para tocar e cantar, e acompanhando isso desde cedo, aos 4 anos de idade eu já comecei a arriscar as primeiras experiências com a música, tocando percussão. Com 9 anos de idade me interessei pelo cavaquinho, instrumento que meu pai sempre tocou, e ele foi pacientemente me ensinando a tocar. Aos 14 anos já tocava samba junto a alguns amigos em festinhas de 15 anos, ainda com essa idade também formei uma banda de rock que nunca saiu do quarto de um dos meus amigos, com 16 pra 17 anos comecei a me aprofundar no forró, ritmo que já amava e junto a alguns amigos da escola comecei a tocar e cantar forró (inclusive um deles até hoje me acompanha tocando sanfona na banda, Carlos Henrique). Na altura, formamos um trio pé de serra que vivia tocando nos eventos da escola, e começamos a expandir nosso som. Até então não tratava a música como profissão. Passei um tempo tocando com menos frequência, e quando tive a experiência de morar fora do país, descobri que aquela era minha verdadeira vocação. Em 2010 fui para Lisboa fazer intercâmbio na área de Turismo (curso no qual sou formado), e minha única oportunidade de emprego foi a música. Por lá fiz voz, cavaco e violão em bares, restaurantes, boates, acompanhei artistas brasileiros como Dinho Zamorano, que toca samba, e Rogerinho do Acordeon e Enrique Matos que fazem forró. Ao retornar ao Brasil, descobri que eu deveria assumir a música como profissão, então foi aí que comecei a fazer forró de verdade, sem pensar no retorno que aquilo daria, e sim na vontade de representar esse estilo tão rico e tão nordestino. Cheguei a formar um quarteto de forró com Lucy Alves e logo em seguida veio a ideia de juntar os amigos da escola com os quais eu sempre fiz forró. Os Gonzagas sempre foi uma banda de família, afinal de contas, no inicio da formação, eram 3 irmãos e um primo, hoje um dos irmãos se mantém na formação e os demais já não estão mais.

2 – Papa Bento XVI diz que evangelizamos a cultura quando valorizamos e divulgamos o melhor dessa cultura. De certa forma, a escolha de voces de resgatar um pouco do autentico forró é um verdadeiro “nadar contra a corrente” nos tempos de hoje. Foi um desafio apostar na autenticidade?

Com certeza foi, e é um desafio. Costumamos brincar dizendo que estamos percorrendo os caminhos que Luiz Gonzaga não percorreu.As pessoas atualmente carecem de mensagens do bem nas letras das canções, carecem de músicas que engrandeçam o coração, que as façam se sentir melhor de alguma forma. As vezes não precisa de letras rebuscadas, basta carregar uma mensagem leve, que de alguma forma possa mudar o humor, ou fazer a pessoa refletir sobre um momento que está vivendo, ou traga uma identificação com as palavras nordestinas utilizadas, ou simplesmente sentir vontade de dançar ao som de uma sanfona, uma zabumba e um triângulo, sem ser acompanhada por letras que possam machucar alguém. A nossa música ao mesmo tempo que visita os clássicos da música nordestina, mostra que o forró é atual, que podemos sim comunicar para todas as gerações, principalmente os mais jovens, sem precisar apelar. Temos influências de vários estilos musicais como rock, reggae, samba, e outros, o que faz com que nossa sonoridade tenha uma autenticidade que traz o selo do nordeste através do sotaque, e do modo que a música é pensada e realizada. De certa forma, somos nordestinos, paraibanos, de João Pessoa, fazendo som, e por mais que misturemos, nosso forte é o forró. O sentimento de nadar contra a maré se dá mais quando percebemos que as pessoas não consomem música com conteúdo por falta de alternativa, pois chegam a elas apenas aquelas músicas que destroem muitas vezes os valores baseados no amor, na família e no respeito. Temos a consciência que o trabalho que fazemos demora mais a ser assimilado, mas ele é perene. Por isso, fazemos questão em insistir e acreditar, pois nossa missão é maior do que apenas tocar em grandes palcos, ou ganhar dinheiro; buscamos levar alegria, amor, paz, união, família e principalmente esperança por onde passamos.

3 – Todos já sabem da “revolução” causada na vida de vocês após a participação da banda no programa Super Star, da Rede Globo. Mas além dessa revolução, houve a revolução do seu encontro com Deus, Felipe. Como foi isso?

Sem dúvida, a revolução maior foi no meu encontro com Deus. Quem me conhece mais de perto sabe que o programa na verdade foi um grande pretexto que Deus usou para dizer o quanto Ele me ama, e mesmo eu sendo tão limitado, pecador e ingrato, Ele se mostrou e se mostra fiel a todo momento. Apesar de ter sido criado em um âmbito católico, meus pais nunca me obrigaram a ir à igreja, mas minha avó sempre me ensinou muito sobre a doutrina da igreja. Entretanto, na minha adolescência fui me desligando das coisas de Deus, e fui criando uma resistência a tudo que a igreja dizia, apesar de acreditar em Deus, e sempre, quando lembrava, fazer minhas orações antes de dormir. Me tornei muito cético, auto-suficiente e resistente à vontade de Deus. Com a chegada de Rafa (minha noiva) em minha vida, ela começou a bater de frente com minhas resistências,e querer me convencer que eu estava errado, tivemos muitas discussões por conta desse assunto. Em 2014, com a morte do meu pai, fui ao fundo do poço, e a partir dessa grande dor comecei a me abrir a ação de Deus em minha vida. Foi quando tive uma grande experiência de conversão, primeiro com Maria, depois com a Eucaristia e, daí por diante, muitas coisas aconteceram. Cheguei a pensar em desistir da música, e já estava conformado com isso. Foi quando durante uma adoração (a última daquele ano) eu estava no último banco da igreja e em um momento de profunda oração eu falava a Deus: “Senhor, esse foi um ano difícil para mim, perdi meu pai, preciso trabalhar com algo que me dê retorno imediato para ajudar a minha mãe, e não quero mais a música na minha vida, então abre uma nova porta.” Foi quando o diácono que ministrava a adoração começou a proclamar: “Deus está me dando uma palavra e é para um músico; Uma outra oportunidade surgirá e é na área musical”. Na hora eu recebi aquela profecia e chorei bastante, pois Deus confirmava através das lágrimas que aquela palavra realmente tinha sido para mim. Com mais ou menos um mês recebemos a ligação da Globo dizendo que tínhamos sido selecionados para participar do programa Superstar, e comecei a entender como Deus age.

4 – No Programa Encontros, da Fátima Bernardes, o anúncio de que você juntamente com sua noiva viviam a castidade ganhou uma enorme repercussão em todo o Brasil. Como voce se sentiu após esse gesto visto por muitos como um gesto de coragem? Como foi se deparar com um mundo que não é mais “acostumado” com posturas desse tipo?

Muita gente não sabe, mas uma semana antes do programa da Fátima Bernardes, eu vivi uma crise sem saber discernir o que Deus queria de mim. Durante uma pregação na comunidade que faço parte (Fraterno Amor) passei a perceber que eu gastava mais tempo com a banda do que com Deus, e aquilo me consumiu de uma forma que me fez repensar se realmente a banda era para mim. Então pedi ao meu formador pessoal (e fundador da Comunidade), Andrei Alves, que rezasse comigo e me ajudasse naquele momento de tantos questionamentos e incertezas. Foi quando ele depois de uma longa formação e conversa, rezou comigo e pediu a Deus sinais claros se era vontade dEle ou não eu estar na banda. E exatamente uma semana depois recebi uma ligação da produção do programa perguntando se havia alguma problema em abordar o tema castidade, já que souberam através de um amigo que eu vivia essa realidade. Conversei com Rafa (já que o tema a envolvia também) e com meu formador, e ele nos mostrou que aquela era a oportunidade que Deus tava dando para eu testemunhar o amor dEle. Fiquei muito nervoso em falar, mas o Espírito Santo me conduziu naquele momento. Me senti surpreso com a repercussão e com a proporção que a minha fala tomou. Não esperava de forma alguma, é tanto que na hora que o programa acabou as pessoas da plateia e da própria produção vieram falar comigo e parabenizar pela coragem, mas eu não entendia pq aquele tema tinha gerado tanta surpresa. Quando cheguei ao camarim meu celular estava cheio de mensagens de vários lugares do mundo, e ai passei a entender o quanto os valores do mundo estão invertidos. Passei a perceber o quanto nós católicos nos omitimos em falar das nossas experiências com Deus, o quanto somos egoístas em guardar só para nós as maravilhas do Bom Deus (como diz Santa Teresinha) e o quanto é importante darmos testemunho desse amor, não na intenção de convencer, pois amor não é convencimento, e sim na intenção de contagiar, pois amor se troca, não se compra. Como disse São Francisco: “Tome cuidado com a sua vida, talvez ela seja o único Evangelho que as pessoas tenham”felipe_namorada

 

 

 

 

 

 

 

5 – Vou mais além: quem é o Felipe antes e depois de viver aquilo que a Igreja recomenda?

A castidade foi uma das melhores escolhas das nossas vidas (minha e de Rafa), pois passamos a entender o verdadeiro significado do amor. Para quem enxerga de fora a castidade, parece ser apenas a abstinência do sexo, mas quem vive sabe que primeiramente é uma grande prova de amor a Deus, pois você por amor a Deus abre mão do seu tempo de desfrutar de algo que lhe dar prazer, para viver o tempo de Deus. A castidade é um exercício de amor a Deus, autocontrole, amadurecimento na relação e acima de tudo amor e respeito ao parceiro. Viver a castidade é colocar o amor a frente da relação, é entender o verdadeiro significado do matrimônio. Vivemos em um mundo que muitos valores estão invertidos, as pessoas não tem paciência para mais nada, e os prazeres se tornaram banais. Poder caminhar ao lado de alguém que você ama, tendo o amor de Deus como objetivo, é algo que não tem explicação. Viver a castidade só é possível com Deus, entregando diariamente todos os seus desejos, pensamentos, e vontades nas mãos de Deus, para que Ele possa lhe ajudar.

6 – E sobre seu casamento – que pelo jeito já tem data marcada -, como está a expectativa?

Não vemos a hora de subir ao altar e poder dizer sim a Deus, e firmar esse compromisso de amor. Já está bem perto, e a medida que o dia vai chegando, o coração vai acelerando e a gratidão a Deus em poder senti-lo sempre por perto só aumenta, pois sabemos que nosso amor é fruto da vontade de Deus, pois duas pessoas tão diferentes se juntarem só tem uma explicação, Deus quer a nossa santificação, percebemos que o fato de sermos diferentes faz com que estejamos sempre exercitando nossa humildade, paciência, e deixando Deus nos guiar com muito amor. Entendi que Rafa me tira da zona de conforto, me faz viver com mais fé, pois cada passo que damos, é entregue a Deus.

7 – E para encerrar, quero lhe dizer que voce não está só. Outros cantores que atuam no meio secular também vivem sua fé sem terem renunciado à carreira. É o caso do cantor italiano Nek e do cantor e ator mexicano Eduardo Verástegui. É possível conciliar carreira e fé, Felipe? Como transformar esse trabalho em missão?

Sei que essa missão Deus reservou para muitos filhos dEle, pois não é só na música que devemos ser luz no mundo, acredito que em qualquer profissão devemos carregar a marca de Cristo. Quanto a música, sem dúvida é um ambiente que nos deixa muito expostos as tentações do mundo, diariamente somos provados através de várias ofertas que ferem o que Deus quer de nós –  álcool, drogas, prostituição, ambientes extremamente inóspitos da presença de Deus -, enfim, é uma realidade, que outras profissões também enfrentam, mas talvez a frequência que nos deparamos seja um pouco maior. Entretanto, dá sim para conciliar, mas para isso busco estar sempre em comunhão com Deus, rezar sempre antes de sair de casa, confessar, participar da santa missa, o terço é uma arma que carrego sempre no bolso, e cada lugar que piso consagro a Jesus Cristo pedindo para que Ele cante comigo, fale por mim e haja por mim, pois se estou ali algo muito maior do que sou capaz de enxergar Ele quer de mim. Sou consciente de que sozinho não sou capaz de caminhar, então peço que Deus esteja sempre a me conduzir. Busco com isso transformar minha profissão em uma verdadeira missão, dando sentido a todas as coisas e tendo como objetivo levar coisas boas as pessoas, que muitas vezes carecem de um simples sorriso, ou um simples abraço, muito mais do que qualquer quantia, ou foto ou qualquer coisa do tipo, busco do meu jeito amar, e as vezes um boa noite é capaz de fazer aquela pessoa se sentir amada.

Por Mirticeli Dias

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