Em entrevista a Contexto Y Acción, o intelectual britânico David Harvey, geógrafo e teórico marxista, fala dos desafios urbanos. Harvey encontra nos fluxos do capital pelo planeta as origens das crises que nos afetam – a social, a climática e a política –, incluindo a ascensão política de Donald Trump. Contudo, o professor emérito da City University of New York também observa pontos de tensão no sistema que origina essas crises.

Segundo o autor, todos temos que empregar nossas habilidades para conseguir um processo revolucionário que nos distancie dessa loucura do capitalismo contemporâneo, para criar uma sociedade sensata, na qual cada um de nós tenha uma vida decente, condições de vida decentes e conceitos razoáveis sobre um futuro decente.

O capitalismo, para Harvey, desenvolve novas tecnologias. Contudo, critica o escritor, elas não são empregadas para libertar os seres humanos e os emancipar, mas, ao contrário, para gerar mais riqueza e poder para uns poucos. “A economia contemporânea tende a evitar as contradições. Não gosta das contradições, finge que não existem. Então, Marx vem e diz que o capital por definição é contraditório, e se você deseja uma análise sobre o funcionamento das contradições, você tem que se colocar e precisa estudar Marx”, explicou.

Em Nova York, por exemplo, há um enorme boom imobiliário no qual tudo são estruturas de investimento para rendas altas. “Temos uma crise de moradia acessível. Estamos construindo para os bilionários dos países do Golfo Pérsico e da Rússia e seja lá de onde se possa investir, para que possam ter um lugar para vir comer e ficar duas semanas ao ano, nas quais irão comprar ou o que seja. É uma loucura. É uma economia demente”, avalia.

Reflexão sobre as cidades – O autor lembra que muitas das revoltas que ocorreram no mundo, nos últimos 15-20 anos, surgiram em torno de problemas urbanos. O parque Gezi na Turquia, as revoltas em cidades brasileiras em 2013, etc.

“Tendo a pensar que as cidades são zonas-chave de organização e reflexão, o lugar onde realmente podemos mudar a natureza da sociedade. Não só lutando pelos problemas no lugar de trabalho, algo que continua crucial, mas também lutando por novas condições no espaço vital, para que todos possamos ter um lar e um ambiente decentes e, imaginemos uma vida cotidiana decente”, disse.

Para o professor, o projeto neoliberal de concentração da riqueza e poder está mudando a forma de nossas cidades, tornando-as cidades para investir, não em cidades para viver. O professor, no entanto, não deixa de ter esperanças: “Se nosso mundo urbano foi imaginado e feito então ele pode ser reimaginado e refeito”, disse.

Fonte: CNBB

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