Interpretar a Palavra de Deus com docilidade, sem soberba, pede Papa

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Na homilia desta segunda-feira, 20, Francisco alertou: “Muitas vezes nós preferimos as nossas interpretações da Palavra do Senhor à Palavra do Senhor”

Da redação, com Vatican News

Ser dóceis à Palavra de Deus, que é sempre novidade. Esta é a exortação do Papa na missa desta sexta-feira, 20, celebrada na Casa Santa Marta. Refletindo sobre a primeira leitura, Francisco se concentrou na rejeição “por parte de Deus” de Saul como rei, “profecia” confiada a Samuel.

O pecado de Saul, explicou o Pontífice, foi a falta de docilidade à Palavra de Deus, pensando que a própria “interpretação” da mesma era “mais correta”. “É a medula do pecado contra a docilidade”, esclareceu o Santo Padre. O Papa recorda que o Senhor havia dito a Saul para não tirar nada do povo que havia sido derrotado, mas isso não aconteceu:

“Quando Samuel vai repreendê-lo da parte Senhor, ele diz, explica: ‘Mas, veja, havia bois, havia tantos animais gordos, bons, e com eles fiz um sacrifício ao Senhor’. Ele não colocou nada no bolso, os outros sim. De fato, com essa atitude de interpretar a Palavra de Deus como lhe parecia, permitiu que os outros colocassem algo dos espólios nos bolsos. Os passos da corrupção: se começa com uma pequena desobediência, uma falta de docilidade e se vai em frente, em frente, em frente”.

Depois de ter exterminado os Amalequitas, o povo retirou do espólio pequenos e grandes animais, primícias do que é dedicado ao extermínio, para sacrificar ao Senhor, observou Francisco. É Samuel quem recorda como o Senhor prefere obediência à voz de Deus aos holocausto e sacrifícios, esclarecendo a hierarquia de valores: é mais importante ter um “coração dócil” e “obedecer”, antes que “fazer sacrifícios, jejuns, penitências”, destacou o Pontífice.

O pecado da falta de docilidade, prosseguiu Francisco, está precisamente naquele preferir aquilo que penso e não o que ordena o Senhor. De acordo com o Santo Padre, quando homens e mulheres se rebelam contra a vontade do Senhor, não são dóceis, é como se cometessem um pecado de adivinhação. “Como se, mesmo dizendo acreditar em Deus, fosse a uma cartomante para ler as mãos por segurança. O não obedecer ao Senhor, a falta de docilidade, é como uma adivinhação”, esclareceu.

Segundo o Pontífice, quando alguém se obstina diante da vontade do Senhor, é um idolatra, porque prefere o que  pensa, aquele ídolo, à vontade do Senhor. E esta desobediência a Saul custou o reino, porque rejeitou a Palavra do Senhor, e o Senhor o rejeitou como rei, ponderou o Papa. Tal ato, incentiva os cristãos a pensarem um pouco sobre a docilidade:

“Muitas vezes nós preferimos as nossas interpretações do Evangelho ou da Palavra do Senhor ao Evangelho à Palavra do Senhor. Por exemplo, quando nós caímos nas casuísticas, nas casuísticas morais… Esta não é a vontade do Senhor. A vontade do Senhor é clara, está nos mandamentos, na Bíblia e a mostra o Espírito Santo dentro do seu coração. Mas quando eu fico obstinado e transformo a Palavra do Senhor em ideologia sou um idolatra, não sou dócil. A docilidade, a obediência”.

Citando o Evangelho, Francisco recordou que os discípulos eram criticados porque não jejuavam. “É o Senhor que explica que não se deve remendar um vestido velho com um pedaço de tecido cru, porque se corre o risco de piorar o rasgo. E que não se deve colocar vinho novo em odres velhos, para não quebrar os odres, perdendo tudo: portanto, vinho novo em odres novos”.

“A novidade da Palavra do Senhor – porque a Palavra do Senhor sempre é novidade, nos leva sempre avante – vence sempre, é melhor do que tudo. Vence a idolatria, vence a soberba e vence esta atitude de ser demasiado seguro de si mesmo, não pela Palavra do Senhor, mas pelas ideologias que eu fiz em volta da Palavra do Senhor. Há uma frase de Jesus muito boa que explica tudo isso e que a traz de Deus, do Antigo Testamento: ‘Quero misericórdia e não sacrifícios’”.

Ser um bom cristão significa então ser dócil à Palavra do Senhor, ouvir o que o Senhor diz sobre a justiça, sobre a caridade, sobre o perdão, sobre a misericórdia e não ser incoerentes na vida, usando uma ideologia para poder ir avante, alertou o Santo Padre. É verdade, acrescentou o Papa, que a Palavra de Deus às vezes coloca homens e mulheres em dificuldade, mas o diabo faz o mesmo, de maneira enganosa. Ser cristão, portanto, é “ser livres”, através da “confiança” em Deus, concluiu.

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